Saem DVDs de três obras-primas inspiradas em Graciliano Ramos: Vidas Secas, Memórias do Cárcere e São Bernardo

LUIZ ZANIN ORICCHIO | O Estado de S.Paulo |Dizem que Graciliano Ramos não gostava de cinema. Pelo menos, seu personagem em Angústia, Luis da Silva, culpava o cinema por todos os males. Leia esse diálogo entre Luis e seu vizinho Ramalho, pai de Marina, por quem o protagonista vai se apaixonar: “Não se case, seu Luis. Casamento é buraco. O mundo está perdido.

 - Divulgação

– Isso é por causa do cinema, seu Ramalho. O senhor nunca vai lá. É feliz. Nem calcula as sem-vergonhezas que há na tela.”

Apesar das ressalvas do neurótico Luis, poucos autores foram tão bem tratados pelo cinema como Graciliano Ramos, conforme atesta a caixa lançada pelo Instituto Moreira Salles com três filmes adaptados de suas obras – Vidas Secas, Memórias do Cárcere e São Bernardo. As duas primeiras por Nelson Pereira dos Santos, a última, por Leon Hirszman – Nelson, por sinal, participa de um debate com Miúcha na sexta-feira, na Flip, no qual vai falar sobre suas adaptações.

Em primeiro lugar, deve-se ressaltar a qualidade das cópias, feitas a partir de matrizes recuperadas das obras originais. Além desse item fundamental, há que destacar o capricho da edição, com cada um dos discos acompanhado de folheto contendo análise e depoimentos sobre os filmes.

É compreensível que Graciliano Ramos tenha exercido fascínio sobre uma geração de cineastas ainda bastante influenciada pela literatura brasileira. Sua pegada social, o ponto de vista de esquerda e, acima de tudo, o estilo, pareciam bastante atraentes como pontos de partida para um cinema que se desejava inovador, ousado e também comprometido com a história do País.

O estilo, em especial, representava um desafio. Graciliano é exemplo acabado de concisão, despojamento e precisão. Para Otto Maria Carpeaux, Graciliano “é muito meticuloso. Quer eliminar tudo o que não é essencial: as descrições pitorescas, o lugar-comum das frases feitas, a eloquência tendenciosa. Seria capaz de eliminar os seus romances inéditos, eliminar o próprio mundo”.

A questão, portanto, ao adaptar Graciliano, não seria apegar-se à letra dos textos, impossível na transposição de um meio a outro. Fundamental é não trair-lhe o espírito, inscrito no estilo e que expressa sua visão de mundo.

Desse modo, Nelson Pereira enfrentaria Vidas Secas com felicidade particular. Ele mesmo diz que o livro mais parece roteiro de cinema que romance. Rico em imagens, o livro não oferece dificuldades maiores ao cineasta, uma vez que a saga da família de retirantes é vista de fora, em terceira pessoa, do “ponto de vista da câmera”.

O registro fotográfico, sim, era complicado. A solução foi obter uma fotografia crua, sem filtros, captando a agressividade da luz do sertão. Havia quem temesse pela revelação dos negativos. A trilha sonora se resumia ao gemido das rodas de carros de bois, terrível, angustiante, triste. Sem retórica ou demagogia, o filme Vidas Secas expressava, naquele 1963, o disparate social brasileiro. Esse mesmo que obrigava famílias como as de Sinhá Vitória (Maria Ribeiro), Fabiano (Átila Iório), dois meninos, mais um papagaio e uma cadela, a se embrenharem na caatinga em busca de uma cidade salvadora. Há um tom quase bíblico nessa caminhada, o que não esconde a pegada social bem definida.

São Bernardo, de 1972, sela o encontro entre o rigor de Graciliano Ramos e a precisão de Leon Hirszman. É dos filmes mais minuciosos do cinema brasileiro sem, por isso, perder em frescor e espontaneidade. Othon Bastos, que interpreta o árido fazendeiro Paulo Honório, conta que alguns planos levavam horas para serem filmados. A trilha, ousadíssima, é de Caetano Veloso. Conforme Caetano escreve em Verdade Tropical (Companhia das Letras, 1997), inspira-se no ranger dos carros de bois de Vidas Secas. Usa, como células sonoras, algo parecido aos “grunhidos” (sic) da sua gravação de Asa Branca, feita no exílio em Londres. A trilha expressa essa dor, que era a do Brasil da ditadura, do exílio interno do País.

Já Memórias do Cárcere, de 1984, apanha o Brasil em outra época, às vésperas da redemocratização. É obra que antecipa o fechamento de um ciclo de triste memória. Carlos Vereza, iluminado, encarna o escritor em sua passagem pelos porões da ditadura de Getúlio Vargas nessa história de sofrimento mas também de celebração. Sobrevivente dos desmandos, é o escritor que tem a palavra final. Como ele mesmo diz, ao ser libertado da prisão na Ilha Grande: “Vocês me forneceram excelente material para um livro”. Esse épico, de longa duração (197 minutos) é pontuado pelo olhar firme de Vereza/Graciliano e uma trilha grandiloquente (ao contrário das minimalistas de Vidas Secas e São Bernardo) dominada pela Grande Fantasia Triunfal para o Hino Nacional Brasileiro, de Gottschalk. O momento de abertura era propício para a livre expressão patriótica.

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