Desejos de Ano Novo

Nunca é tarde para desejar um Feliz Ano Novo. E Drummond sabia muito bem disso.

Leia com o coração:

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Desejos de Ano Novo

“Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente.

Para você, desejo o sonho realizado. O amor esperado. 
A esperança renovada.

Para você, desejo todas as cores desta vida. Todas as alegrias que puder sorrir, todas as músicas que puder emocionar.

Para você neste novo ano, desejo que os amigos sejam mais cúmplices, que sua família esteja mais unida, que sua vida seja mais bem vivida.

Gostaria de lhe desejar tantas coisas. Mas nada seria suficiente para repassar o que realmente desejo a você. Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos. Desejos grandes e que eles possam te mover a cada minuto, rumo à sua felicidade!”

Carlos Drummond Andrade (Itariba, 31/10/1902 – Rio de Janeiro, 17/8/1987)
Poeta, contista e cronista brasileiro, licenciado em Farmácia.

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O Sotaque das mineiras

O Sotaque das Mineiras
(Carlos Drummond de Andrade)

O sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar. Porque, se tudo que é bom tem um desses horríveis efeitos colaterais, como é que o falar lindo (das mineiras) ficou de fora?
Mineira deveria nascer com tarja preta avisando:
ouvi-la faz mal à saúde. Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para assinar um contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: só isso?
Assino achando que ela me faz um favor.
Eu sou suspeitíssimo. Confesso: esse sotaque me desarma. Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas.
Preferem abandoná-las no meio do caminho, não dizem:
pode parar, dizem: ‘pó parar’.
Não dizem: onde eu estou?, dizem: ‘ôncôtô’.
Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada e levianamente, que os mineiros vivem lingüisticamente falando, apenas de uais, trens e sôs.
Digo-lhes que não(…)
Mineiras não usam o famosíssimo ‘tudo bem’.
Sempre que duas mineiras se encontram, uma delas há de perguntar pra outra:
– ‘Cê tá boa?’.
Para mim, isso é pleonasmo.
Perguntar para uma mineira se ela tá boa é desnecessário.
Há outras. (…)
– ‘Aqui’, não vou dar conta de chegar na hora, não.
Esse ‘aqui’ é outro que só tem aqui(…)
Que os mineiros não acabam as palavras, todo mundo sabe.
É um tal de ‘bonitim’, ‘fechadim’, e por aí vai.
Já me acostumei a ouvir:
– E aí, ‘vão?’. Traduzo:
– E aí, vamos?
Não caia na besteira de esperar um ‘vamos’ completo de uma mineira.
Não ouvirá nunca.
Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela, mas prefiro, com todo respeito, a mineira.
Nada pessoal.
Aqui certas regras não entram.
São barradas pelas montanhas.
Por exemplo, em Minas, se você quiser falar que precisa ir a um lugar, vai dizer:
– Eu preciso ‘de’ ir.
Onde os mineiros arrumaram esse ‘de’, aí no meio, é uma boa pergunta.
Só não me perguntem. Mas que ele existe, existe(…)
Aqui em Minas ninguém precisa ir a lugar nenhum.
Entendam…
Você não precisa ir, você precisa ‘de’ ir.
Você não precisa viajar, você precisa ‘de’ viajar.
Se você chamar sua filha para acompanhá-la ao supermercado, ela reclamará:
– Ah, mãe, eu preciso ‘de’ ir?
No supermercado, o mineiro não faz muitas compras, ele compra um ‘tanto de coisa’.
O supermercado não estará lotado, ele terá um ‘tanto de gente'(…)
Entendeu?
Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir um mendigo e ficar com pena, suspirará:
– ‘Ai, gente, que dó’.
É provável que a essa altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras(…)
Para uma mineira falar que algo é muitíssimo bom vai dizer:
– ‘Ô, é sem noção’.
Entendeu?
É ‘sem noção!
‘ Só não esqueça, por favor, o ‘Ô’ no começo, porque sem ele não dá para dar noção do tanto que algo é sem noção,
entendeu?
Capaz…
Se você propõe algo ela diz:
– ‘Capaz’!!!
Vocês já ouviram esse ‘capaz’?
É lindo(…)
Já ouviu o ‘nem…?
‘ Completo ele fica:
– Ah, ‘nem’ (…)
A propósito, um mineiro não pergunta:
– Você não vai?
A pergunta, mineiramente falando, seria:
– ‘Cê’ não anima ‘de’ ir?
Tão simples.
O resto do Brasil complica tudo.
É, ué, cês dão umas volta pra falar os trem(…)
O plural, então, é um problema.
Um lindo problema, mas um problema.
Sou, não nego, suspeito.
Minha inclinação é para perdoar, com louvor, os deslizes vocabulares das mineiras.
Aliás, deslizes nada.
Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer que a oficial esteja com a razão.
Se você, em conversa, falar:
– Ah, fui lá comprar umas coisas…
– ‘Que’ s coisa?’ – ela retrucará.
O plural dá um pulo(…)
E se você acusar injustamente uma mineira, ela, chorosa,confidenciará:
– Ele pôs a culpa ‘ni mim’.
A conjugação dos verbos tem lá seus mistérios, em Minas.
Ontem, uma senhora docemente me consolou:
‘preocupa não, bobo!’.
E meus ouvidos, já acostumados às ingênuas conjugações mineiras, nem se espantam.
Talvez se espantassem se ouvissem um: ‘não se preocupe’, ou algo assim.
A fórmula mineira é sintética.
E diz tudo.
Até o tchau, em Minas, é personalizado.
Ninguém diz tchau pura e simplesmente.
Aqui se diz: ‘tchau pro cê’, ‘tchau pro cês’.
É útil deixar claro o destinatário do tchau.
Então neh, as mineiras são trem bão demais sô….

Drummond no inicio do caminho

Não sei e também ninguém sabe se quando Drummond escreveu que havia pedras no meio do caminho se referia aos seus primeiros textos, não publicados até hoje. Isto mesmo. Textos inéditos de Drummond serão publicados ainda este mês. O melhor que eles viram com comentários do próprio do poeta.

Os 25 poemas da Triste Alegria” são os textos perdidos e jovens de Drummond. Sim, jovens. Afinal ele os escreveu antes dos 25 anos. Talvez por isso não os publicou. Antônio Carlos Secchin, imortal da Academia Brasileira de Letras, é o responsável pela descoberta dos arquivos perdidos. Segundo ele a obra veio parar em sua mão oriunda de alguém próximo a Drummond.

“É alguém muito vinculado a Drummond que resolveu repassar esse material e, felizmente, eu fui o contemplado”, afirma Secchin em entrevista ao Jornal O Tempo, de BH. O autor acredita que Drummond iria publicar o livro pois não o destruiu.

Durante a Flip – Feira Internacional do Livro de Parati/RJ – o livro terá destaque. Drummond é o homenageado do evento. Na Flip ocorrerá debates sobre as obras de Drummond.  Secchin participará de um deles e vai falar sobre relação do mineiro com o modernismo.

Leia um dos poemas perdidos:

A mulher do Elevador

A que ficou lá longe, na grande cidade…

A que eu vi apenas um minuto, um minuto somente,
no elevador que subia 
 
Com que saudade inédita eu me lembro da que não foi
nem uma sombra, uma sombra fugaz, no meu destino 
 
Da que ficou, sorrindo, com um pouco de mim,
Com um pouco do meu ser anonymo e vulgar,
A milhares de kilometros, na grande cidade… 

Carlos Drummond de Andrade 

Que finde o capitalismo

Certa vez cismei e escrevi um poema.

Uma história linda, que autor algum poderia imaginar.

Foi então que vi a burrada que acabara de fazer.

O que era novo, se torneou velho e conhecido.

Somente em minha mente havia existido tal novidade.

No mundo…

O que pensei era apenas plágio.

Cópia de algo que não era efêmero.

Copiei Max, Platão e Shakespeare.

Assis, Drummond e Clarice.

Tudo em min já havia sido escrito.

Tudo que ali pensei se foi.

Um dia voltará.

Ai escreverei um amor que não há.

Um Anjo nunca escrito.

Pedra no caminho, não hei de encontrar.

Afinal, na caverna

não mais estarei, pois um revolução causarei.

Que finde o capitalismo.

por Marquione Ban