A vassoura, a folha, a mulher, o vento e eu

Aquele momento que você para e pensa: o que eu faço aqui? É, sempre acontece comigo. Mas não é quando chego a um lugar. E sim sobre meus sentimentos.

Tenho sido um poço de tudo. De mim se extrai todas as formas de sentimentos. Todos os desejos. Tudo que há habita em mim.

Tenso? Sei que sim.

Essa tensão é que me faz pensar em quem sou eu.

Outro dia vi uma pessoa varrendo a rua. A árvore estava lá aparentemente parada. A mulher movimentava de um lado ao outro. As folhas caiam lentamente. Umas mais secas que as outras. A vassoura só obedecia.

Essa cena me fez pensar. Se sou um poço e há nele tudo, como posso me controlar? Mas a questão se complicou. Não sei se queria estar imóvel com a árvore ou movimentando, mas sem sair de um curto espaço como a mulher. E ainda tinha a resignada vassoura. Quem iria me conduzir?

Me dei conta que as folhas caiam porque já tinham feito sua missão para com a árvore. E um fator determinava o futuro delas.

O vento era o motor de todo o movimento dos personagens. As folhas voavam rua a fora. Umas fugiam da vassoura. Outras não.

Ainda não entendi tudo. Acho que nunca vou. Aquele momento que senti tudo, que sou tudo, sempre vai existir. Como todo esse movimento sem noção, nada faz sentido. E tudo se significa de saber.

Descobri que estava naquele momento apenas para observar. Outro dia estarei para movimentar. Ora obediente, ora circular, ora a fugir. Naquele momento eu estava a observar. Apenas a observar.

Sou um poço hoje. Amanhã o vento. Depois a folha. Muitas vezes a vassoura.

Por Marquione Ban

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O Sotaque das mineiras

O Sotaque das Mineiras
(Carlos Drummond de Andrade)

O sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar. Porque, se tudo que é bom tem um desses horríveis efeitos colaterais, como é que o falar lindo (das mineiras) ficou de fora?
Mineira deveria nascer com tarja preta avisando:
ouvi-la faz mal à saúde. Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para assinar um contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: só isso?
Assino achando que ela me faz um favor.
Eu sou suspeitíssimo. Confesso: esse sotaque me desarma. Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas.
Preferem abandoná-las no meio do caminho, não dizem:
pode parar, dizem: ‘pó parar’.
Não dizem: onde eu estou?, dizem: ‘ôncôtô’.
Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada e levianamente, que os mineiros vivem lingüisticamente falando, apenas de uais, trens e sôs.
Digo-lhes que não(…)
Mineiras não usam o famosíssimo ‘tudo bem’.
Sempre que duas mineiras se encontram, uma delas há de perguntar pra outra:
– ‘Cê tá boa?’.
Para mim, isso é pleonasmo.
Perguntar para uma mineira se ela tá boa é desnecessário.
Há outras. (…)
– ‘Aqui’, não vou dar conta de chegar na hora, não.
Esse ‘aqui’ é outro que só tem aqui(…)
Que os mineiros não acabam as palavras, todo mundo sabe.
É um tal de ‘bonitim’, ‘fechadim’, e por aí vai.
Já me acostumei a ouvir:
– E aí, ‘vão?’. Traduzo:
– E aí, vamos?
Não caia na besteira de esperar um ‘vamos’ completo de uma mineira.
Não ouvirá nunca.
Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela, mas prefiro, com todo respeito, a mineira.
Nada pessoal.
Aqui certas regras não entram.
São barradas pelas montanhas.
Por exemplo, em Minas, se você quiser falar que precisa ir a um lugar, vai dizer:
– Eu preciso ‘de’ ir.
Onde os mineiros arrumaram esse ‘de’, aí no meio, é uma boa pergunta.
Só não me perguntem. Mas que ele existe, existe(…)
Aqui em Minas ninguém precisa ir a lugar nenhum.
Entendam…
Você não precisa ir, você precisa ‘de’ ir.
Você não precisa viajar, você precisa ‘de’ viajar.
Se você chamar sua filha para acompanhá-la ao supermercado, ela reclamará:
– Ah, mãe, eu preciso ‘de’ ir?
No supermercado, o mineiro não faz muitas compras, ele compra um ‘tanto de coisa’.
O supermercado não estará lotado, ele terá um ‘tanto de gente'(…)
Entendeu?
Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir um mendigo e ficar com pena, suspirará:
– ‘Ai, gente, que dó’.
É provável que a essa altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras(…)
Para uma mineira falar que algo é muitíssimo bom vai dizer:
– ‘Ô, é sem noção’.
Entendeu?
É ‘sem noção!
‘ Só não esqueça, por favor, o ‘Ô’ no começo, porque sem ele não dá para dar noção do tanto que algo é sem noção,
entendeu?
Capaz…
Se você propõe algo ela diz:
– ‘Capaz’!!!
Vocês já ouviram esse ‘capaz’?
É lindo(…)
Já ouviu o ‘nem…?
‘ Completo ele fica:
– Ah, ‘nem’ (…)
A propósito, um mineiro não pergunta:
– Você não vai?
A pergunta, mineiramente falando, seria:
– ‘Cê’ não anima ‘de’ ir?
Tão simples.
O resto do Brasil complica tudo.
É, ué, cês dão umas volta pra falar os trem(…)
O plural, então, é um problema.
Um lindo problema, mas um problema.
Sou, não nego, suspeito.
Minha inclinação é para perdoar, com louvor, os deslizes vocabulares das mineiras.
Aliás, deslizes nada.
Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer que a oficial esteja com a razão.
Se você, em conversa, falar:
– Ah, fui lá comprar umas coisas…
– ‘Que’ s coisa?’ – ela retrucará.
O plural dá um pulo(…)
E se você acusar injustamente uma mineira, ela, chorosa,confidenciará:
– Ele pôs a culpa ‘ni mim’.
A conjugação dos verbos tem lá seus mistérios, em Minas.
Ontem, uma senhora docemente me consolou:
‘preocupa não, bobo!’.
E meus ouvidos, já acostumados às ingênuas conjugações mineiras, nem se espantam.
Talvez se espantassem se ouvissem um: ‘não se preocupe’, ou algo assim.
A fórmula mineira é sintética.
E diz tudo.
Até o tchau, em Minas, é personalizado.
Ninguém diz tchau pura e simplesmente.
Aqui se diz: ‘tchau pro cê’, ‘tchau pro cês’.
É útil deixar claro o destinatário do tchau.
Então neh, as mineiras são trem bão demais sô….